domingo, 20 de fevereiro de 2022

Não queiramos uma guerra

Matt Taibi

O establishment da política externa americana, perseguindo décadas de fracassos, parece estar a considerar seriamente o impensável na Ucrânia

Joe Biden disse na semana passada que a resposta americana na Ucrânia seria proporcional às acções de Vladimir Putin.  "Depende", postulou o presidente, os pensamentos a flutuar como bolhas numa lâmpada de lava.  "Uma coisa é se for uma pequena incursão..."
 
 


Os alarmes soaram em Washington.  O rasgo na ilusão política nacional foi tão grave que republicanos e democratas foram forçados a concordar, caiando nos braços uns dos outros em pânico.  O secretário de Estado Tony Blinken, que cada vez mais parece prestes a perder um lance livre historicamente importante, disse sobre uma possível invasão russa: "Podemos deixar bem claras as consequências dessa escolha".  O senador republicano Ted Cruz disse que Biden "chocou o mundo ao dar luz verde a Putin para invadir a Ucrânia".  O Conselho de Segurança Nacional emitiu uma declaração por meio de Jen Psaki de que qualquer movimento russo na Ucrânia seria "recebido com uma resposta rápida, severa e unida".

Numa conferência de imprensa posterior, Biden explicou que teve que abreviar as coisas porque "vocês vão me perguntar tudo sobre a Rússia". Ele aparece dias depois de abaixar as calças para mostrar aos repórteres os eléctrodos que o chefe de gabinete da Casa Branca, Ron Klain, provavelmente já colocou nos seus testículos.

Esta é uma reprise de uma história antiga, apenas com um actor principal mais fraco. Seis anos atrás, Barack Obama deu uma entrevista ao The Atlantic anulando os sonhos de guerra dos militaristas do Beltway na Ucrânia:

O fato é que a Ucrânia, que é um país não pertencente à OTAN, será vulnerável à dominação militar da Rússia, não importa o que façamos... Este é um exemplo onde temos que ser muito claros sobre quais são nossos interesses centrais e as razões por que estamos dispostos a ir para a guerra.

Naquela época, como agora, os meios de propaganda quer azuis quer vermelhos uivavam. O "interesse central" do consenso de Washington é a guerra.  Não é apenas um grande negócio, mas nosso maior negócio, uma das últimas coisas que ainda fazemos e exportamos em grande escala.  A maior parte das pessoas eleitas para o Congresso e a maior parte dos lobistas, advogados e jornalistas que se aconchegam numa gigantesca massa fornicadora na capital dedicam-se à manutenção da burocracia de guerra.

O seu principal objectivo é aumentar o orçamento da defesa e militarizar as missões de outras agências governamentais (do Estado ao Departamento de Energia e à CIA). Os think-tanks de Washington existem para gerar justificativas intelectuais para intervenções estrangeiras, enquanto atacam com ferocidade - como se fossem emergências como pandemias ou furacões mortais - o aparecimento de ideias como o "dividendo da paz" que ameaça mover qualquer uma das suas tigelas de arroz para algum outro eleitorado.

Tanto os comentários de Biden como a "doutrina Obama" foram traições fundamentais, com presidentes a dizerem em voz alta que existia algo como os "nossos" interesses separados da camarilha de porcos de guerra de Washington. Este último grupo, de alguma forma, acredita-se imune ao erro e ofende-se extraordinariamente com os desafios ao seu julgamento, surpreendentes dados os fracassos espectaculares em todas as arenas, do Iraque ao Afeganistão e à Síria.

Essas pessoas perdem consistentemente os concursos de popularidade para canibais e puxadores de unhas, e o seu manual - uma peça que eles repetem e repetem, nunca se desviando apesar de décadas de desastre - é projectado para reduzir todas as situações de política externa a disputas de força. O seu pensamento de abanar o cachorro argumenta sempre que o movimento certo é aquele que lhes permite esvaziar as suas caixas de brinquedos caros, de sistemas de armas a esquemas de derrube gerados por Langley, que uma imprensa complacente chama alegremente "mudança de regime".

Obama olhou para o grande e lamacento trecho de terra no topo do Mar Negro chamado Ucrânia e perguntou se a sua importância estratégica valia a guerra. Ou seja, uma guerra real, com um inimigo que pode ripostar, não os vassalos do terceiro mundo no Iraque ou na Líbia que oferecem tanta resistência como os inimigos coloniais britânicos que os oficiais de Blackadder descreveram como tendo "seis metros de altura e armados com grama seca". A sua resposta foi um óbvio não. A Ucrânia tem menos importância estratégica para os Estados Unidos do que o Iraque, o Afeganistão e até mesmo o Kuwait.

Ninguém dirá isso em voz alta, mas o maior argumento contra o apoio dos EUA à acção militar de qualquer tipo na Ucrânia é a incompetência inerrante das nossas missões e o histórico consistente de desestabilizar áreas de interesse estratégico por meio do nosso envolvimento, inclusive nesses dois países específicos. No momento em que o Muro de Berlim caiu, os Estados Unidos tinham capital político quase ilimitado com esses futuros territórios ex-soviéticos. Nós estragamos tudo em poucos anos. Agora que estamos realmente com problemas na Ucrânia, por que continuaríamos com a mesma cartilha que nos trouxe até aqui?


Texto original em TK News

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Depois da Geringonça, a pesca à linha

Vamos ter uma governação de "negociação à vista e pesca à linha" ou, quem sabe, do velho PS do pisca-pisca, ora à esquerda, ora à direita. Veremos o que virá na rede, mas certamente não será o que os portugueses e o país mais precisariam.
Em 2015, o PS não venceu as eleições mas, com o apoio do BE e do PCP-PEV, conseguiu uma maioria parlamentar que lhe permitiu constituir governo e afastar a Direita da governação. Esta solução governativa, que os críticos alcunharam de Geringonça, por considerarem que não tinha pernas para andar, manter-se-ia afinal durante toda a legislatura, melhorando a vida dos portugueses com a devolução dos cortes de rendimentos (salários e pensões) feitos pelo governo anterior.
Nas recentes eleições legislativas, os eleitores deram uma vitória expressiva ao PS (que a duas semanas do acto eleitoral esteve até à beira de alcançar uma maioria absoluta) e, injustamente, — sim "o povo é quem mais ordena", mas nem sempre o faz bem e com sentido de justiça — entenderam apenas manter o número de deputados do BE e fizeram ainda pior ao PCP-PEV, reduzindo-lhes quase um terço da representação parlamentar. Como se os méritos da Geringonça coubessem por inteiro ao PS, o que qualquer pessoa intelectualmente séria sabe que está muito longe de ser verdade.
E a verdade é que a Geringonça, que em 2015 serviu para o PS (que não venceu as eleições) ser governo, e mais importante que isso, para devolver os rendimentos e a esperança aos portugueses, já não serve, agora que o PS venceu folgadamente as eleições, para continuar a melhorar as nossas vidas e fazer de Portugal um país socialmente mais justo.


É por isso que o PS, três dias após ter proclamado que “os portugueses gostaram da geringonça” e apenas vinte e quatro horas depois de se ter comprometido a continuar as negociações com o BE para um acordo de legislatura que desse estabilidade à governação, afinal, tomando como pretexto a conhecida recusa do PCP-PEV de fazer parte de uma nova geringonça e na sequência da reunião com as Confederações Patronais, assinou a certidão de óbito da Geringonça.
Vamos pois ter uma governação de "negociação à vista e pesca à linha" ou, quem sabe, do velho PS do pisca-pisca, ora à esquerda, ora à direita. Veremos o que dará a pescaria, mas certamente não será o que os portugueses e o país mais precisariam.



sábado, 4 de maio de 2019

A campanha de Costa
















De repente, fez-se luz. Percebeu-se o que pretendia António Costa com a mudança radical e repentina na proposta do Governo para a Lei de Bases da Saúde, que tinha resultado de uma negociação em que ele próprio participara. Havia pressões e Costa aproveitou a oportunidade. Precisava de criar o ambiente político para a campanha que tem na cabeça. Ele quer o melhor de dois mundos. Depois de ter as vantagens do apoio da esquerda, quer as vantagens de não o ter. Depois de uma maioria sem maioria, quer recuperar o voto útil que morreu quando mostrou que era possível governar com os votos do BE e do PCP sem ficar em primeiro. Um bom final de mandato da ‘geringonça’ impedia a dramatização. Com o cenário montado, era preciso fazer esquecer a lealdade por vezes dolorosa com que os “irresponsáveis” do Bloco e do PCP aprovaram quatro orçamentos que foram além das exigências europeias. E para a dinamitação da ‘geringonça’ teve de remover Pedro Nuno Santos do lugar de pivô.

O segundo ato da farsa foi-lhe oferecido por Rui Rio. Como há limites para o contorcionismo, António Costa sabia que BE e PCP não podiam mudar a sua posição de sempre quanto à reposição da carreira dos professores. Tanto o sabia que aceitou, em dois orçamentos sucessivos, a norma que estipulava que apenas o tempo e o modo da reposição dependeriam da disponibilidade orçamental. Saiu-lhe a sorte grande com a cambalhota da direita, que Rio e Cristas vão pagar cara. E veio o terceiro ato: a ameaça de demissão que, a poucos meses das eleições, é apenas um ato de campanha eleitoral. E com ela, uma aldrabice descarada: que a decisão do Parlamento significa um aumento de 800 milhões, incomportável para o Governo. À falta de um PEC IV para repetir o choradinho socrático, optou-se pela mentira. O que foi decidido não tem prazos nem calendário. O único impacto é a contagem dos dois anos, nove meses e 18 dias, até 2020, que o próprio Governo sempre mostrou disponibilidade para pagar. O que mudou foi a oportunidade de Costa arrancar com a sua campanha eleitoral.

Apesar de BE e PCP o terem deixado governar quase sem sobressaltos estes quatro anos, o velho PS quer rédea solta. Só que António Costa não vai ter maio­ria absoluta. Vai governar com quem depois deste truque de última hora a pensar, como é seu hábito, apenas nos próximos meses? Esta é a pergunta dramática que nos vai fazer na campanha para nos sacar o voto. Em nome de uma ambição pessoal demasiado pequena para as circunstâncias, Costa montou uma encenação que atira por terra uma mudança histórica na política portuguesa, que a esquerda europeia via como exemplo. Este seria o único legado decente de uma geração falhada de políticos à esquerda. Porque, infelizmente, tudo em António Costa é tática, nada em António Costa é convicção. Isso é coisa que toda a gente de dentro do PS me avisa há anos.

Foi a ‘geringonça’ que salvou o PS do destino dos restantes partidos socialistas europeus. Terá de ser uma nova geração de políticos a impedir que o calculismo continue a deitar tudo a perder. Ao apostar todas as fichas num fim triste para a ‘geringonça’, Costa semeia a desilusão e o desalento nos que apoiaram esta solução política.

Mesmo que consiga vitórias circunstanciais, a derrota é brutal. E é por isso que, esta semana, António Costa se juntou à tralha do passado.



Daniel Oliveira, Expresso, 04/05/2019 (via blog "A Estátua de Sal")